segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Já foi o tempo em que passámos horas com a MTV ligada à espera do clip, que passeámos de carro a ver as iluminações de Natal a torcer para que passasse na Rádio. Agora, especialmente para vocês: Last Christmas!! Porque há coisas que nunca mudam!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

sweet


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O Turismo

Visitar este país

até à última gota:

O porco e o Porto a bola e a bolota

o que é como quem diz

itinerar a derrota.

Tudo tem lugar no mapa

Paris Washington Moscovo

Em Itália vê-se o papa

Em Lisboa vê-se o povo.

Welcome Bienvenus Salud Wilkommen Viva

a sífilis saúda-vos saúda-vos a estiva

desta carga de heróis em carne viva

nociva mas barata

vindes matar a sede com uva

beber o sumo de ócio que nos mata.

Desemborcais nos cais desembolsais demais

mas não sabeis

as coisas viscerais as coisas principais

deste país azul

com mais hotéis do que hospitais

talvez por ser ao sol talvez por ser ao sul.

Aqui ao pé do mar bordamos a tristeza

as toalhas de mão as toalhas de mesa

que levais para casa Souvenir

deste povo sem pão

que se cose a sorrir.

Aqui ao pé do rio gememos a saudade

nosso fado submisso nossa água a correr.

Canção de mal devir Souvenir Souvenir

deste povo de trégua

que se canta a morrer.

Aqui ao pé do vento forjamos o lamento

dum país que se vende a peso nos prospectos

tanto de sol ardente tanto de cal fervente

e uma nódoa de céu nos xailes pretos.

Aqui ao pé do fel gritamos o segredo

Do que parece fácil neste país de luz:

é apenas a fome.

É apenas o medo.

É apenas o sangue.

É apenas o pus.


Ary Dos Santos

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

É que isto sou eu...

"Resolvi que quando regressasse ao mundo lá de baixo tentaria conservar a minha mente límpida no meio das obscuras ideias humanas que fumegam como fábricas no horizonte através do qual eu caminharia, em frente..."

"Poupei todos os cêntimos e depois subitamente espatifei tudo numa grande e maravilhosa viagem à Europa, ou a qualquer lado, e senti-me leve e alegre."

"Claro que viajar pelo mundo fora não é tão bom como parece, só depois de regressarmos de todo o calor e horror é que nos esquecemos do que nos chateámos e recordamos as estranhas cenas que vimos."

Jack Kerouac, Viajante Solitário
 
...tão eu...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer,
acordar antes de nascer o dia é que não dá muita alegria.

Ditado popular de SV

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

"A felicidade consiste em compreender que é tudo um grande e estranho sonho."

Jack Kerouac, Viajante Solitário

domingo, 4 de outubro de 2009

208.

Assim como, quer o saibamos quer não, temos todos uma metafísica, assim também, quer o queiramos quer não, temos todos uma moral. Tenho uma moral muito simples - não fazer a ninguém nem mal nem bem. Não fazer a ninguém mal, porque não só reconheço nos outros o mesmo direito que julgo que me cabe, de que não me incomodem, mas acho que bastam os males naturais para mal que tenha de haver no mundo. Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros uma amabilidade de viagem. Não fazer bem, porque não sei o que é o bem, nem se o faço quando julgo que o faço. Sei eu que males produzo se dou esmola? Sei eu que males produzo se educo ou instruo? Na dúvida, abstenho-me. E acho, ainda, que auxiliar ou esclarecer é, em certo modo, fazer o mal de intervir na vida alheia. A bondade é um capricho temperamental: não temos o direito de fazer os outros vítimas de nossos caprichos, ainda que de humanidade ou de ternura. Os benefícios são coisas que se infligem; por isso os abomino friamente.

Se não faço o bem, por moral, também não exijo que mo façam. Se adoeço, o que mais me pesa é que obrigo alguém a tratar-me, coisa que me repugnaria de fazer a outrem. Nunca visitei um amigo doente. Sempre que, tendo eu adoecido, me visitaram, sofri cada visita como um incómodo, um insulto, uma violação injustificável da minha intimidade decisiva. Não gosto que me dêem coisas; parecem com isso obrigar-me a que as dê também - aos mesmos ou a outros, seja a quem for.
Sou altamente sociável de um modo altamente negativo. Sou a inofensividade encarnada. Mas não sou mais do que isso, não quero ser mais do que isso, não posso ser mais do que isso. Tenho para com tudo que existe uma ternura visual, um carinho da inteligência - nada no coração. Não tenho fé em nada, esperança de nada, caridade para nada. Abomino com náusea e pasmo os sinceros de todas as sinceridades e os místicos de todos os misticismos ou, antes e melhor, as sinceridades de todos os sinceros e os misticismos de todos os místicos. Essa náusea é quase física quando esses misticismos são activos, quando pretendem convencer a inteligência alheia, ou mover a vontade alheia, encontrar a verdade ou reformar o mundo.
Considero-me feliz por não ter já parentes. Não me vejo assim na obrigação, que inevitavelmente me pesaria, de ter que amar alguém. Não tenho saudades senão literariamente. Lembro a minha infância com lágrimas, mas são lágrimas rítmicas, onde já se prepara a prosa. Lembro-a como uma coisa externa e através de coisas externas; lembro só as coisas externas. Não é sossego dos serões de província que me enternece da infância que vivi neles, é a disposição da mesa para o chá, são os vultos dos móveis em torno da casa, são as caras e os gestos físicos das pessoas. É de quadros que tenho saudades. Por isso, tanto me enternece a minha infância como a de outrem: são ambas, no passado que não sei o que é, fenómenos puramente visuais, que sinto com a atenção literária. Enterneço-me, sim, mas não é porque lembro, mas porque vejo.
Nunca amei ninguém. O mais que tenho amado são sensações minhas - estados da visualidade consciente, impressões da audição desperta, perfumes que são uma maneira de a humildade do mundo externo falar comigo, dizer-me coisas do passado (tão fácil de lembrar pelos cheiros) -, isto é, de me darem mais realidade, mais emoção, que o simples pão a cozer lá dentro na padaria funda, como naquela tarde longínqua em que vinha do enterro do meu tio que me amara tanto e havia em mim vagamente a ternura de um alívio, não sei bem de quê.


E esta a minha moral, ou a minha metafísica, ou eu: Transeunte de tudo - até de minha própria alma -, não pertenço a nada, não desejo nada, não sou nada - centro abstracto de sensações impessoais, espelho caído sentiente virado para a variedade do mundo. Com isto, não sei se sou feliz ou infeliz; nem me importa.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

207.

Quantas coisas, que temos por certas ou justas, não são mais que os vestígios dos nossos sonhos, o sonambulismo da nossa incompreensão!

Sabe acaso alguém o que é certo ou justo? Quantas coisas, que temos por belas, não são mais que o uso da época, a ficção do lugar e da hora?
Quantas coisas, que temos por nossas, não são mais que aquilo de que somos perfeitos espelhos, ou invólucros transparentes, alheios no sangue à raça da sua natureza!
Quanto mais medito na capacidade, que temos, de nos enganar, mais se me esvai entre os dedos lassos a areia fina das certezas desfeitas. E todo o mundo me surge, em momentos em que a meditação se me torna um sentimento, e com isso a mente se me obnubila, como uma névoa feita de sombra, um crepúsculo dos ângulos e das arestas, uma ficção do interlúdio, uma demora da antemanhã. Tudo se me transforma em um absoluto morto de ele mesmo, numa estagnação de pormenores. E os mesmos sentidos, com que transfiro a meditação para esquecê-la, são uma espécie de sono, qualquer coisa de remoto e de sequaz, interstício, diferença, acaso das sombras e da confusão.
Nesses momentos, em que compreenderia os ascetas e os retirados, se houvesse em mim poder de compreender os que se empenham em qualquer esforço com fins absolutos, ou em qualquer crença capaz de produzir um esforço, eu criaria, se pudesse, toda uma estética da desconsolação, uma rítmica íntima de balada de berço, coada pelas ternuras da noite em grandes afastamentos de outros lares.
Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de porque se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e o outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exactamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão.
Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.


Bernardo Soares, Livro do Desassossego



quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Estágios são escravatura de “colarinho branco”

As más condições dos estágios em Portugal, frequentemente não remunerados e com grandes exigências profissionais, são vistas pelos sociólogos como um modo moderno de escravatura.
Os estagiários mantém “a vida em suspenso”, diz Natália Alves, socióloga e professora auxiliar na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, entrevistada pela Lusa.
Esta especialista dá o exemplo do curso de Direito, no qual, após cinco anos de estudo, os licenciados têm “mais dois anos em que se trabalha a custo zero”, obrigando os jovens a “protelarem os seus projectos de vida”.
A mesma especialista denuncia a prática de não pagar aos estagiários sob o pretexto de que estes estão a efectuar formação como sendo “uma exploração da mão-de-obra”.
"Se é certo que eles [os estagiários] não são tão produtivos como um advogado com experiência, a verdade é que eles produzem", diz.
"A palavra exploração, com todo o seu sentido e significado, é a que melhor se adequa a estas situações. É uma exploração de colarinho branco e nem mesmo me repugna o uso do termo escravatura", concluiu.
Elísio Estanque, investigador do Centro de Estudos Sociais, mostrou-se apreensivo por seu turno com a condição dos estagiários.
Para o investigador, esta situação "insere-se no problema mais geral da precariedade crescente no mercado de trabalho" e é "o reflexo de culturas de prepotência e de abuso de poder".
Em declarações à Lusa, Elísio Estanque assinalou "num cenário de incerteza e de pessimismo face ao futuro, as empresas tentam proteger-se, aproveitando os recursos mais à mão e menos dispendiosos", mas essa situação é passível de gerar "insatisfação, mal-estar e desmotivação pelo trabalho, acentuando o pessimismo e também o individualismo negativo suportado por sentimentos de ansiedade e de medo".
O problema atinge "um amplo leque de situações e categorias sócio-profissionais" e, "se não for travado e interdito rapidamente, pode redundar em novas formas de rebelião e revoltas de consequências imprevisíveis", antevê.
"Em termos políticos, tais situações põem em risco a consolidação da cidadania, o que, aliás, vem acontecendo, levando as camadas mais jovens ao desinteresse pela vida cívica e política", alertou Elísio Estanque.
in http://economico.sapo.pt

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Era um jovem príncipe, questionando-se sobre a efemeridade da felicidade, da beleza e de todas as coisas. Que teve medo do nascer e da morte. E que decidiu abandonar o seu palácio e a sua vida luxuosa e se refugiou na floresta onde ao aprender com os mestres os questionou e os ensionou. E meditou sob a árvore do conhecimento, "não me levantarei deste lugar", tomou como resolução no seu íntimo, "até que, liberto do apego, o meu espírito alcance a libertação de todo o sofrimento.
"As acções procedem do apego - as acções são executadas por causa de uma necessidade imaginada à qual o ser se apegou e em nome da qual ele realizou o seu movimento; o apego procede do desejo, o desejo precede o hábito; o desejo procede da perpecpção - nunca desejámos algo que não tivéssemos tido conhecimento e, ao tê-lo, a percepção resultante foi de prazer, caso em que desejámos, ou de dor, caso em que nasceu a aversão, ambos sendo os dois lados da mesma moeda chamada desejo; a percepção procede da sensação (...) a sensação surge do contacto com os seis órgãos sensoriais (...) que procedem da individualidade.
A consciência por sua vez procede da individualidade..."
Jack Kerouac - Acorda! A vida de Buda
"...a morte procede do nascimento, o nascimento procede das acções, as acções procedem do apego, o apego procede do desejo, o desejo procede da percepção, a percepção procede da sensação, a sensação procede dos seis órgãos sensoriais, os seis órgãos sensoriais procedem da individualidade e a individualidade procede da consciência."

Jack Kerouac, Acorda! A vida de Buda

190.

Qualquer deslocamento das horas usuais traz sempre ao espírito uma novidade fria, um prazer levemente desconfortante. Quem tem o hábito de sair do escritório às seis horas, e por acaso saia às cinco, tem desde logo um feriado mental e uma coisa que parece pena de não saber o que fazer de si.
Ontem, por ter de que tratar longe, saí do escritório às quatro horas, e às cinco tinha terminado a minha tarefa afastada. Não costumo estar nas ruas àquela hora, e por isso estava numa cidade diferente. O tom lento da luz nas frontarias usuais era de uma doçura improfícua, e os transeuntes de sempre passavam por mim na cidade ao lado, marinheiros desembarcados da esquadra de ontem à noite.
Eram ainda horas de estar aberto o escritório. Recolhi a ele com um pasmo natural dos empregados de quem me havia já despedido. Então de volta? Sim, de volta. Estava ali livre de sentir, sozinho com os que me acompanhavam sem que espiritualmente ali estivessem para mim... Era em certo modo o lar, isto é, o lugar onde se não sente.
Bernardo Soares, Livro do Desassossego

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Petiscos de Fim de Semana VIII - O Crepe de Chocolate


Algarve


Praia da Rocha

Petiscos de Fim de Semana VII - O Crepe Chinês

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

México

"Ocasionalmente uma luz mortiça brilhava na cidade. Era o xerife a fazer a sua ronda e a falar sozinho, com uma lanterna eléctrica na noite da selva. Depois vi a luz que vinha na nossa direcção, e ouvi-lhe os passos no tapete de areia e vegetação. Parou e iluminou brevemente o carro. Sentei-me e olhei para ele. Numa voz trémula e extremamente terna, ele disse:
- Dormiendo? - e apontou para Dean, na estrada.
- Si, dormiendo.
- Bueno, bueno - disse ele a si próprio, e com relutância e tristeza deu meia volta e regressou à sua ronda solitária.
Um polícia adorável não dera Deus à América. Era o guardião da cidade adormecida, e pronto."

Jack Kerouac, Pela Estrada Fora

terça-feira, 8 de setembro de 2009

"Em 1942 fui a estrela de um dos dramas mais sujos de todos os tempos. Era marinheiro então, e fui ao Scollay Square, em Boston, para beber; bebi sessenta copos de cerveja e retirei-me para a retrete, onde me enrolei à sanita e adormeci. Durante a noite pelo menos cem marinheiros e civis de toda a espécie vieram e largaram-me em cima o que tinham a fazer ali até me deixarem irreconhecivelmente coberto. Que diferença faz, no fundo? O anonimato no mundo dos homens é melhor que a fama no céu, porque, que é o céu? E que é a terra? Tudo está na mente."
Jack Kerouac, Pela Estrada Fora

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Se eu encontrasse o génio da lampada pedia para viver 10 vidas em paralelo. Sempre eu, mas com diversos corpos, para poder fazer tudo. Uma vida só não chega!!
E vocês o que pediam ao génio da lampada?
"O que é aquele sentimento quando nos afastamos de alguém e vemos os pontos em que as pessoas se tornaram a desaparecer ao longe? É o demasiadamente grande mundo a engolir-nos, é o adeus. Mas viramo-nos para a frente, para a seguinte aventura louca sob os céus."
Jack Kerouac, Pela Estrada Fora

domingo, 30 de agosto de 2009

Bailarico em S.Bartolomeu



"O autocarro partia às dez, de forma que tinha quatro horas à minha frente para ver Hollywood. Primeiro comprei um pão e salame e fiz dez sanduíches para comer enquantro atravessava o país. Sobrava-me um dólar. Sentei-me no muro de cimento das traseiras de um parque de estacionamento de Hollywood a fazer as sanduíches. Enquanto me dedicava a esta absurda tarefa, grandes holofotes de uma estreia de Hollywood pincelavam o céu, aquele céu cheio de zumbidos da costa oeste. E esta era a minha carreira em Hollywood - era a minha última noite em Hollywood, e eu estava a espalhar mostarda no colo atrás das retretes de um parque de estacionamento."
Jack Kerouac, Pela Estrada Fora

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Hollywood

"Fomos a Hollywood e tentámos arranjar trabalho no drugstore à esquina de Sunset e Vine. Que esquina! Grandes famílias do interior, saídas das carripanas, estavam permanentemente nos passeios à espera de ver uma estrela qualquer, e a estrela nunca aparecia. (...) As raparigas mais bonitas do mundo passavam, de calças; vinham para ser starlets, acabavam em drive-ins. (...) Mulheres gordas gritonas atravessavam correndo as ruas para ocuparem lugar nas bichas para os concursos de perguntas e respostas. (...) Todos os chuis de LA pareciam gigolos; obviamente tinham vindo para fazer cinema. Toda a gente tinha vindo para fazer cinema, até eu.
Jack Kerouac, Pela Estrada Fora

terça-feira, 25 de agosto de 2009

"Na minha juventude eu andara no mar com um tipo alto e seco da Luisiana, chamado Big Slim Hazard, William Holmes Hazard, que era vagabundo por escolha. Em criança assistira à cena de um vagabundo vir pedir à sua mãe um bocado de torta, e ela dera-lho e quando o vagabundo se afastara pela estrada fora o rapazinho perguntara à mãe:
- Mãe, quem era ele?
- Era um vagabundo, filho.
- Mãe, quando for grande quero ser vagabundo.
- Cala-te, um Hazard não diz uma coisa dessas.
Mas ele nunca esquecera esse dia e depois de crescer, após um curto período como jogador de futebol no LSU, tornou-se vagabundo."
Jack Kerouac, Pela Estrada Fora

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

"Acordei quando o Sol se estava a pôr vermelho; e foi esse momento distinto na minha vida, o mais estranho de todos, quando não soube quem era eu - estava longe de casa, obcecado e cansado da viagem, num quarto de hotel barato que nunca vira, a ouvir os silvos de vapor lá fora e o estalar das velhas madeiras do hotel, e passos no andar de baixo, e todos esses sons tristes, e olhava para o tecto rachado, e na verdade fiquei sem saber quem era, isto durante quinze segundos estranhos."
Jack Kerouac, Pela Estrada Fora
Não costumo ter paciência para livros que falem de como obter sucesso ou como viver uma vida melhor, alcançar objectivos, etc. Peguei neste livro (O monge que vendeu o seu Ferrari) porque se encontrava, sozinho, junto de algumas B.D.’s, em cima da mesa-de-cabeceira do meu namorado. Já tinha ouvido falar nele como uma introdução à filosofia budista e a verdade é que acabei por lê-lo. Piroso ou não, o livro acabou por me fazer ter vontade de melhor o meu modo de vida. Apesar de ser uma visão da filosofia oriental trocada para miúdos, faz-nos pensar na importância que damos a coisas supérfluas e o tempo que perdemos com coisas que não nos trazem nada para as nossas vidas. Traduz-se na indicação de certas orientações que devemos seguir para encontrarmos a realização, paz de espírito e força para alcançar a felicidade em cada gesto, em cada acto, em cada dia. Não querendo saber de qualquer dica que lá vem, como olhar para uma rosa durante horas ou acordar às 5 hora da manhã, ou só comer comida vegetariana, a verdade é que nos faz repensar o nosso modo stressante e fútil que levamos no nosso dia-a-dia. E por falar nisso, ligou-me agora uma professora de yoga com quem contactei e 4ª feira, às 7h da manhã, irei experimentar uma aula dela.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

162.

Tudo quanto de desagradável nos sucede na vida - figuras ridículas que fazemos, maus gestos que temos, lapsos em que caímos de qualquer das virtudes - deve ser considerado como meros acidentes externos, impotentes para atingir a substância da alma. Tenhamo-los como dores de dentes, ou calos, da vida, coisas que nos incomodam mas são externas ainda que nossas, ou que só tem que supor a nossa existência orgânica ou que preocupar-se o que há de vital em nós.
Quando atingimos esta atitude, que é, em outro modo, a dos místicos, estamos defendidos não só do mundo mas de nós mesmos, pois vencemos o que em nós é externo, é outrem, é o contrário de nós e por isso o nosso inimigo.
Daí Horácio, falando do varão justo, que ficaria impávido ainda que em torno dele ruísse o mundo. A imagem é absurda, justo o seu sentido. Ainda que em torno de nós rua o que fingimos que somos, porque coexistimos, devemos ficar impávidos - não porque sejamos justos, mas porque somos nós, e sermos nós é nada ter que ver com essas coisas externas que ruem, ainda que ruam sobre o que para elas somos.
A vida deve ser, para os melhores, um sonho que se recusa a confrontos.
Bernardo Soares, Livro do Desassossego
Li num livro que a nossa mente não consegue ter dois pensamentos ao mesmo tempo. Experimentem. É verdade. Sempre que um pensamento menos bom nos assola, basta pensarmos em coisas boas para que logo esse pensamento negativo tenha obrigatoriamente de ser excluido da nossa cabeça. Tal como a música que a Maria cantava aos meninos, em "A Musica no Coração"

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Por não encontrar mais palavras que vos confortem, procurei um poema sobre a paz mas não achei nenhum suficientemente bonito para exprimir o que queria. Digo então somente o que todos dizem, a vida é isto mesmo: nascemos, crescemos e morremos. E o tempo tudo sara, a saudade transformar-se-á em memórias, boas recordações e carinho. Fica o que de bom as pessoas nos dão.

Um beijinho para os meus dois grandes amigos B e C e suas famílias! :)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

"A verdade é que as ilusões do seu espírito são a nossa desgraça. Não é culpa sua, sei: é uma fatalidade do carácter feminino. É-lhe insuportável a serenidade. Na vida pacífica procuram o romance, no romance procuram a dor. É necessário que esse pequeninos e graciosos crânios tenham sempre a honra de cobrir uma tempestade."
E a verdade é que a condessa, após longo período de secretos encontros, de romances fortuitos, de fugazes aventuras, decidiu fugir com ele. Iriam para Itália onde ninguém os conhecia e poderiam assumir aberta e publicamente a sua história. Eis que, e a mente feminina nunca se encontra pacífica, "Sentia-me vagamente melancólica. O rio, aquelas casas triviais, todos aqueles aspectos que eu conhecia, que eram para mim até aí quase inexpressivos, apareciam-me, pela última vez que os via, com uma feição simpática. Tive uma saudade piegas daqueles lugares: quis sorrir, escarnecer; mas a verdade era que aquela paisagem, o pesado hotel Central, o terraço de Braganza-Hotel, a grosseira e escura Rua do Arsenal, todas essas coisas alheias a mim, me despertavam inesperadamente o desejo institivo de tranquilidade, de família, de situações pacíficas, fazendo destacar no fundo da minha vida, num relevo negro, a aventura que eu ia intentar; e aparecendo-me como um ajuntamento de velhos rostos amigos que se despedem, faziam-me pensar nas coisas irreparáveis, no exílio e na morte!"
No entanto, orgulho, cobardia, esperança, paixão. Prepara a fuga. A sua situação aparece-lhe com o prestígio de um belo romance.
Recebe uma carta dele, que a condessa adjectiva de terrível, na qual ele lhe dá conta dos seus intimos desassossegos.
"Querida: - Tenho aqui no meu quarto, diante de mim, as minhas malas fechadas e afiveladas. Tenho o meu passaporte... É verdade! Não te esqueças de tirar o teu. Escrevi a minha mãe. Escrevi a um amigo querido, que vive na intimidade da minha vida. Por isso bem vês que te escrevo, na austera firmeza da tua resolução. Sou só. O meu destino tenho-o aqui preso na minha mão, como um pássaro, ou como uma luva posso pousá-lo sobre a tolda de um paquete, pô-lo numa mesa de jogo em cima de uma carta, colocá-lo na ponta de uma espada, ou fechar-to na mão e dar-to. Mas tu pelas condições da tua vida tens um lugar definido no mundo limitado e circunscrito. Estás presa, por um anel de casamento, a uma ordem de coisas, a um certo número de leis, e és na vida como um navio ancorado no mar. Por isso é justo que antes de te separares violentamente do teu centro legítimo, eu, que tenho a experiência das desgraças, das viagens, e do espectáculo do mundo, te digas algumas palavras, que, se não me tornarem mais amado ao teu coração, tornar-me-ão mais estimado ao teu carácter. Fias-te de mais no amor, minha doce amiga! Abstrai neste momento de mim, da minha honra, da minha fidelidade. Falo do amor, lei ou mistério ou símbolo, força natural ou invenção literária. Fias-te de mais no amor! Aquele amparo superior, aquele apoio sólido e protector, que todo o espírito procura no mundo, e que uns acham na família, outros na ciência, outros na arte, tu parece quereres encontrá-lo somente na paixão, e não sei se é justo, se isso é realizável!
Creio que te fias demais no amor! Ele não constrói nada, não resolve nada, compromete tudo e não responde por coisa alguma. É um desiquilibro das faculdades; é o predomínio momentâneo e efémero da sensação; isto basta para que não possa repousar sobre ele nenhum destino humano. É uma limitação da liberdade; é uma diminuição do carácter; especializa, circunscreve o indivíduo; é uma tirania natural, é o inimigo astuto do critério e do arbítrio. E queres que tenha esta base a tua situação na vida? E crês na estabilidade do amor, tu?... Sim, é possível, enquanto ele viver do im previsto, do romance e doobstáculo; enquanto necessitar do coupé de estores cerrados; mas logo que entre num estadoregular, que se estabeleça definitivamente para durar, que se organize, que se economize, extingue-se trivialmente; e quando quer conservar -se, tem a miséria de se assemelhar àschamas pintadas de um inferno de teatro. E então, desde o momento que o amor desaparecesse, que razão de ser tinha a tua vida, e que justificação tinha que dar de si o teuincoerente destino? Ficavas sem uma situação definida; tudo te era vedado, ou pela força das leis sociais, ou pela alti vez da tua honra. Recuar para as coisas legitimas, arrepender-te, era impossível: o arrependimento é um facto católico, não é um fac to social. Continuar apersistir em viver pelo amor era um equívoco hipócrita, e poderias um dia encontrar-te a viver na libertinagem.«Imaginas hoje que o amor é a única tendência, a única preo cupação da tua vida... Não: é apenas ideia dominante na tua natu reza. Há outras exigências, que hoje não sentes clamarem dentro de ti, porque têm sido plenamente satisfeitas nomeio legitimo em que tensvivido; mas quando, mais tarde, estiveres retirada de tudo, fechada no amor como numa concha, sentirás então amarga mente que te falta o quer que seja que é a sociedade, a opinião,o centro de amizades, o rang, as consolações incomparáveis que dá a estima dos que nossaúdam. E o não encontrar então no mundo o teu lugar, elegante, aveludado, agaloado, emplumado e coroado, dar-te-á a sensação do abandono; e as consolações que então tequiser ministrar o amor pela sociedade que te falta, encontrarão aos teus olhos o mesmo tédio que encontrariam agora as consolações da sociedade pelo amor que te fugisse. Umamulher que foge com o seu amante, só pode ter um lugar no Demi-monde; ou então um lugarequívoco nas salas, quando é célebre por um talento ou por uma arte. Ora tu não quererás ir para a Itália frequentar, em Nápoles, Madame de Salmé, nem quererás cantar num teatro, nem cometera inconveniência de escrever um livro. A viver modesta, tens de viver triste; a viver radiante, tens de viver humilhada. E pensas que podes, por um ano sequer, viver na intimidade absoluta e no segredo?«O segredo, o refúgio, um ninho perfumado num quinto andar, são coisasextremamente doces, no meio da sociedade e das rela ções do mundo; a public idade oficial da vida dá então um encanto estranho àqueles momentos de mistério. Mas a perpetuidade domistério deve ser igual àquela legendária tortura da beatitude eterna! Quando dois entes se encontram, pelas fatais condições do seu procedimento, obrigados a viverem um do outro,um para o outro, um eternamente no segredo do outro, quandoisto se não passa na ilha de Robinson, num entre dois discípulos de Swedenborg, nem entre dois desgraçados cheios de fome — mas numa cidade ruidosa e viva, entre duas pessoas positivas e educadas pelo Se-gundo Império, e que têm as complacências do luxo, crê que deve ser amargo.
«E depois, pensa! A nossa vida arrastar-se-á tristemente, de país em pais, sem umcentro amado, sem uma família, sem um fim. Não teremos, nem durante a existência nem no grave momento da morte, a serenidade de quem é justo. A nossa vida será como a das sombras românticas de Paulo e Francesca de Rimini, levadas pe lo vento contraditório.Morreremos enfim como dois seres estéreis, que nada criaram, e que não têm quem fique na terra com a heran ça do seu carácter; e quando todos pelos seus filhos ganham a úni ca justaimortalidade, nós somente seremos mortais, e para nós mais que para ninguém será terrível a lembrança do fim! Perdoa que te escreva estas coisas. Mas fiz o meu dever. E agora posso livremente, insuspeitamente, dizer-te que me sinto feliz, e que o momento de amanhã, quandovirmos desaparecer a terra e nos acharmos sós, no infinito mar, será para mim tão belo, que só por ele julgarei justificada a minha vida."
A deturpação perturbada pela paixão, pelo ciúme, levam-na a crer que a base desta carta é um outro amor e cega prossegue a louca ideia de ir ler a correspondência que ele traz sempre consigo. Para tal, tenta adormece-lo com ópio. Mas a euforia causada por esta mistura de sentimentos não traz nunca boas causas.
"O mistério da estrada de Sintra", romance de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, data de 1870. Pergunto-me, como poderião estes autores ter um conhecimento tão apurado sobre a essência feminina? É que ao ler esta parte do livro identifiquei-me completamente, sendo mulher, com a descrição dos pensamentos e atitudes. Realmente há mesmo uma diferença entre homem e mulher, que tem graça ver como se mantém com o passar das gerações. E mais graça ainda tem ver como na altura, autores de romances (apesar fabulosos, não duvido!) tinham essa percepção tão apurada.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Alentejo